- Intróito: O prometido é devido…
Já lá vão 50 dias desde que celebramos a Páscoa, a Ressurreição de Jesus.
A festa do Pentecostes marca o encerramento do Tempo Pascal.
A intenção desta festa passa por cumprir aquilo que havia sido prometido: Jesus tinha dito que depois da sua partida enviaria o Espírito Santo, para continuar, por meio Apóstolos, a sua missão com um alento e uma energia novas.
Diante desta Liturgia da Palavra riquíssima gostaria de centrar a minha reflexão na 1ª leitura e no Evangelho. Uma e outro nos relatam o dom do Espírito Santo dado pelo Pai, por meio de Jesus, aos Apóstolos. Esta festa do Pentecostes, como nascimento “oficial” da Igreja de Jesus Cristo, deve levar-nos por isso, a uma reflexão centrada na Igreja, que olhe a Igreja que somos chamados a ser neste século XXI, cheio de desafios inquietantes e exigentes.
- 1ª leitura
Não é uma crónica jornalística mas sim uma catequese de Lucas sobre a Igreja e sobre a experiência do encontro com o Ressuscitado. Para Lucas, a Igreja é a comunidade que nasce de Jesus Ressuscitado e que é assistida pelo Espírito Santo. Ou seja, a comunidade forma-se depois da ressurreição de Jesus Cristo ser experimentada e acreditada pelos discípulos e depois destes receberem o dom do Espírito.
Lucas coloca precisamente o dom do Espírito Santo na festa do Pentecostes. Esta festa, celebrada 50 dias após a Páscoa, era inicialmente de cariz agrícola pois agradecia a Deus as colheitas; depois tornou-se a comemoração histórica que celebrava a aliança de Deus com os homens por meio de Moisés ou seja, o dom da Lei, no Sinai. Por isso, a intenção de Lucas ao colocar o dom do Espírito, no Pentecostes, é mostrar que o Espírito Santo é a lei da nova aliança iniciada por e em Jesus Cristo.
A partir desta leitura, podemos tirar algumas dilações e conclusões sobre o que deve ser a Igreja nos nossos dias, neste século XXI:
- Comunidade de irmãos – dos que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática pois ser Igreja é permanecer fiel à comunidade
- Reunidos em torno de Cristo – para fazer memória dEle
- Animada e guiada pelo Espírito Santo – Ele é o verdadeiro protagonista da vida e da acção da Igreja. Deus conta com a nossa colaboração mas a iniciativa é sempre do Seu Espírito.
- Espaço de solidariedade e de partilha – casa para todos mas só alguns a aceitam
- Universal e sem fronteiras, capaz de levar a sua mensagem a todos os povos e culturas.
- Evangelho
João coloca o dom do Espírito Santo no próprio dia da Ressurreição, da Páscoa. Por isso, nos apresenta a comunidade dos Apóstolos que vive o desalento, o desencanto e a frustração pela morte d’Aquele em quem haviam depositado toda a sua segurança e esperança.
Os discípulos estão medrosos, inseguros, fechados em si mesmos. Eles sentem-se órfãos abandonados e derrotados. Por isso, é que as portas estão fechadas.
Jesus, pela ressurreição, inaugura um novo estado, uma nova etapa. Diante das inseguranças dos discípulos, Ele propõe e oferece-lhes a paz, a tranquilidade, a serenidade. Como que dissesse a cada um deles, como a nós: “Tende confiança, eu venci o mundo”. A morte, afinal, não é a última palavra: a vida venceu.
Jesus, no entanto, traz em si os sinais e as marcas da cruz para dizer que é o mesmo que morreu… A vitória da vida, a ressurreição vem depois da morte e da cruz.
Jesus cumpre a promessa: dá o Espírito Santo, o Defensor, Aquele que ensina e recorda toda a sua mensagem. Neste dom do Espírito, há como que uma nova criação, uma recriação: Jesus sopra sobre eles como no relato da criação onde Deus sopra para dar vida. Deste modo, Jesus transforma o velho em novo, aqueles discípulos abatidos e sem esperança em audazes testemunhas da sua mensagem de vida para todos os homens.
Diante deste Evangelho, somos convidados e desafiados por Jesus à missão e ao anúncio. Ele diz-nos hoje “também Eu vos envio a vós” (ver o cartaz da comunidade). Jesus quer-nos comprometidos na sua missão e ser cristão, no nosso tempo como sempre, é ser evangelizador. Para isso, temos necessidade de saber abrir as portas da Igreja aos que vêm a ela, porque a Igreja é casa para todos ainda que só alguns a aceitem e reconheçam como tal e, também abrir as portas para que nós que já vimos à Igreja possamos partir para levar a mensagem de paz de Jesus Ressuscitado. Ou seja, a Igreja deve viver nesta dupla dinâmica: manter as portas abertas para todos, porque todos são bem-vindos e também ter as portas abertas para que dela possamos sair renovados e fortalecidos afim de anunciarmos pela nossa comunidade e pelo nosso meio ambiente a mensagem de Jesus Cristo.
Nesta consciência missionária que a Igreja é chamada a ter, é importante esta dinâmica do abrir as portas de par em par a todos e também ao Espírito de Deus que a guia e sustenta, mas também é importante e necessário saber fechar as mesmas portas da Igreja a ventos que não lhe sejam favoráveis e adjuvantes.
- Abrir e fechar portas…
A respeito desta necessidade da Igreja abrir e fechar as portas, consoante os ventos que sopram, gostaria de terminar esta reflexão, e sem me alongar mais, com uma pequena história que caracteriza bem este modo de estar da Igreja sempre e no século XXI.
“Certo peregrino, entrando num bosque, procurava um lugar onde pernoitar. Ao longe, descortinou um telheiro e para lá se dirigiu. Passaria a noite mais protegido, pensou. O telheiro fazia parte do que fora um templo. Era uma antiga Igreja em ruínas. Colunas truncadas, peças de escultura espalhadas por aqui e por acolá. Não foi difícil ao peregrino concluir que tinha havido ali uma Igreja, centro de uma antiga e grande comunidade.
- Mas porque ruíra aquela Igreja? Interrogava-se o peregrino. Quem terá feito isto? Uma guerra, um ataque a um alvo errado, um atentado…
Até que sentiu brotar do silêncio, uma voz que lhe falava e dizia:
- «A ruína começou pelas portas».
O peregrino aproximou-se do lugar donde vinha a voz. A pedra angular, meio soterrada e meio coberta pelo silvado, repetiu:
- «A ruína começou pelas portas» …
- Mas porquê? Como assim? Perguntou o peregrino.
- «Porque estavam abertas, quando deviam estar fechadas;
porque estavam fechadas quando deviam estar abertas;
e porque deixaram entrar todo o tipo de vento»”.
Creio, caros irmãos, que esta deverá ser a grande aprendizagem da nossa vida e da vida da Igreja que somos. Saber manter as portas abertas ou fechadas, distinguindo e discernindo com sabedoria a origem e a natureza dos ventos. A Igreja está no mundo como sinal da presença de Deus e tudo deve fazer para que a sua única razão de existir seja, de facto, Deus e o seu amor por cada um de nós, suas criaturas manifestado e revelado em Jesus Cristo , por meio do Espírito Santo.
Que o Espírito Santo, nesta festa litúrgica do Pentecostes, e que hoje recebemos como dom do alto, nos santifique e fortaleça a nossa missão de testemunhar Jesus Cristo vivo e ressuscitado ao mundo de hoje, sem medos e não conhecendo fronteiras.