Próximo por amor
- “Que hei-de fazer para receber como herança a vida eterna?”
“Que hei-de fazer para receber como herança a vida eterna?” Esta pergunta serve de mote e dá-nos o sentido de toda a Liturgia deste XV Domingo do Tempo Comum. A pergunta que o Doutor da Lei faz a Jesus não é académica nem retórica mas sim uma pergunta de sentido que põe em jogo a finalidade da existência humana.
Permitam-me aflorar este Evangelho tradicionalmente chamado de Evangelho do “Bom Samaritano”.
Lucas apresenta, antes de mais nada, um Doutor da Lei portanto, um judeu justo, não pecador. Põe-lo a inquirir Jesus com elevada fineza teológica aliás, própria de um profundo conhecedor da Lei de Moisés. “Que hei-de fazer para receber como herança a vida eterna? Reparemos que não diz merecer mas sim “herdar”. Ora, todos sabemos que a herança é algo que não se conquista nem se ganha mas, recebe-se de modo absolutamente gratuito, como dom.
Jesus põe o Doutor da Lei a fazer o que ele mais gosta ou seja, a falar e a consultar a Lei. Evidentemente, a resposta que ele dá a Jesus é perfeita e completa mas também previsível. De facto, se a vida eterna fosse meramente uma questão jurídica, de leis portanto, este Doutor seria aprovado com nota máxima, academicamente summa cum laude.
Jesus reconhece a resposta do Doutor. Mas não se fica pelo conhecimento teórico da lei. Jesus acrescenta “faz isso e viverás”. Faz! Pratica! Não basta saber! É preciso fazer! E isto não é, de modo algum, um incentivo ao activismo estéril e difuso mas a tomar consciência que a vida deve comprovar e testemunhar o conhecimento que temos da Palavra de Deus.
O Doutor da Lei quer, no entanto, saber até onde deve levar a prática da lei e, por isso, pergunta “quem é o meu próximo” ou seja, até onde devo amar ou, ainda pior, a quem devo amar. Ele quer estabelecer os limites e os privilégios do seu amor.
[Era comummente aceite entre os doutores e mestres de Israel que estavam excluídos da categoria de “próximo” todos os inimigos. É, portanto, neste contexto que Jesus vai contar a parábola do Samaritano.
Antes de entrarmos um pouco na parábola convém esclarecer ou elucidar da hostilidade entre judeus e samaritanos. De facto, as relações destes dois povos foram, ao longo da história, muito conflituosas.
Para um judeu o termo “samaritano” era equivalente a um insulto como bastardo, renegado, herege, excomungado. Do lado dos samaritanos, o ódio pelos judeus era da mesma proporção e pautado pela mesma moeda.
Ora, Jesus escolhe efectivamente um samaritano para a parábola que conta. Claro que a escolha é intencional. Jesus não responde directamente à pergunta do Doutor da Lei mas vais deixar que seja ela a tirar as dilações finais.]
- A parábola do “bom” Samaritano – alguns pormenores e pormaiores
“Um homem” atravessava a perigosa estrada de Jerusalém para Jericó. Não identifica o homem. Diz simplesmente que é “um homem” apanhado pelos bandidos. O texto mostra as suas qualidades naquele momento: está “meio morto” portanto, ferido, abandonado e necessitado de ajuda.
Passam, “por coincidência”, um sacerdote e um levita pelo caminho. Vejamos primeiro: “por coincidência” é muito significativo uma vez que não precisamos de ir à procura do irmão necessitado já que as circunstâncias da vida fazem com que os encontremos todos os dias. Então, por aquela mesma estrada passam um sacerdote e um levita e ambos passam ao lado, desviando-se do moribundo. Quer um quer outro exercem funções litúrgicas no Templo de Jerusalém; quer um quer outro conhecem bem as coisas de Deus; lidam diariamente com elas mas afinal de contas nada sabem de Deus porque nada sabem de amor, de misericórdia, de compaixão, de solidariedade. A religião que vivem estes “homens da Igreja” é oca, vazia, estéril, faustosa e solene mas nada tem a ver com o amor, com o coração esquecendo a compaixão, o primeiro dos sentimentos de Deus (cf. Ex 34, 6).
É aqui que entra em cena “um samaritano”. Não se diz se é bom ou mau. Basta que seja “um samaritano” para acudir com amor o moribundo. A acção deste samaritano é minuciosamente descrita por Jesus. O samaritano segue o seu coração, esquece-se de si para servir o necessitado. E faz tudo isto movido por compaixão, porque passa junto dele, porque se aproxima e porque pára.
Deste modo, depois da parábola, Jesus responde ao Doutor da Lei com outra pergunta como que virando o bico ao prego: “qual dos três te parece ter sido o próximo daquele homem?”. E com dificuldade, o Doutor da Lei lá reconhece, mesmo sem pronunciar o nome do samaritano, o que percebemos. Jesus (re)centra o problema: não está no saber até onde vai o limite de próximo, quem se deve considerar próximo mas sim em quem se torna próximo demonstrando ter assimilado o comportamento compassivo e misericordioso de Deus. O centro desta questão não está na vontade ou na escolha de cada um. Está na necessidade do outro que se torna totalmente uma responsabilidade para cada um.
- “Então vai e faz o mesmo”
Jesus termina com este imperativo categórico ao modo kantiano. É o desafio de todos os tempos. Foi desafio para o Doutor da Lei como o é para nós neste século XXI. Para se “herdar” a vida eterna é necessário tornar-se, todos os dias, próximo do necessitado, por amor e compaixão, sabendo que o amor a Deus já está subentendido previamente.
É hora de perguntarmos e pararmos: na minha vida concreta de quem me faço próximo, por amor e por compaixão? Pensemos nisto e conformamos a nossa vida sempre com a Palavra de Deus.
Diác. José António Carneiro