Buscarpaz no centro
daturbulência citadina
Vivemem clausura em pleno centro da cidade de Braga, mais precisamente no Mosteiroda Visitação de Santa Maria, possivelmente desconhecido da grande parte dosbracarenses. A clausura pretende ser um “oásis” espiritual no meio daturbulência citadina. Por meio dela, as 17 monjas visitandinas realizam o«êxodo do mundo» para encontrar Deus, vivendo numa alegria quase indescritível.
Pormeio de uma licença especial tive a oportunidade de poder entrar na clausura etomar parte de alguns momentos do seu viver quotidiano.
Silêncio,acolhimento, alegria e espírito de oração... eis o que se vive e experimenta aoatravessar as portas da clausura do Mosteiro da Visitação de Braga.
Asreligiosas da Visitação de Santa Maria dividem os seus tempos diários entreoração e trabalho. Resta-lhes ainda algum tempo para o convívio fraternal.
Porincrível que possa parecer, a “queixa” que mais ouvi entre as monjas foi a dafalta de tempo. Parece incongruente quando lá dentro têm todo o tempo do mundo.Por isso, não resisti a perguntar o motivo desse preenchimento total do tempoquotidiano.
A resposta parece simples mas éconvicta e profunda: «é todo para Deus», diz a irmã Inês, que é uma dasconselheiras da irmã Maria da Conceição, a superiora do mosteiro. No trabalho, nas tarefas simples do dia, naoração, no recreio tudo é direccionado para Deus, tudo em função de Deus.
Aliás,a intenção do seu Fundador – São Francisco de Sales – era que toda a vida eexercícios das Religiosas da Visitação fossem dedicadas pela sua união com Deus,para ajudar por orações e bons exemplos à renovação da Igreja e à salvação dopróximo, que elas fossem excelentes em toda a espécie de virtudes, cujo bomodor, agradando a Deus, se espalhe pelos corações de todos os homens.
Naclausura não há intervalos. Há, certamente, recreio e convívio mas até esse épassado em comunidade, bordando ou fazendo rendas, ou terços e tambémconversando sobre os problemas, as inquietações e os anseios de cada uma, ou ainda os problemas que afligem os homens de hojee partilhando, também, tudo o que de bom vai acontecendo na comunidade, naIgreja e no mundo. «Os recreios são indispensáveis, não só para assegurar umaexpansão salutar, mas também para alimentar um verdadeiro espírito de família»,pode ler-se nas Constituições daOrdem.
Apenasquatro das 17 irmãs têm menos de 70 anos. A irmã Maria Gabriel, com 95 anos, éa mais idosa. A irmã Isabel vem a seguir com os seus 91 anos. A mais nova tem48 anos.
Quemas vê e visita não pode, de modo algum, dar-lhes tanta idade dada a vitalidade,a frescura e a juventude de pensamento.
Emambiente de ameno diálogo, o recreio comunitário é uma oportunidade para a boadisposição e para o convívio. A irmã Maria Helena não hesita em mostrar as suashabilidades de comediante, usando para tal um apurado sentido de humor.
Estaconterrânea do cardeal José Saraiva Martins decidiu, «com grande alegria»,entrar na clausura da Visitação com 66 anos, depois de ter estado 34 anos nasIrmãs do Coração de Maria. A religiosa conta o episódio marcante da suajuventude: Namorava com um rapaz da terra natal e nunca lhe tinha passado pelacabeça ser religiosa. Bem pelo contrário, sentia até uma certa aversão.Todavia, «num passeio familiar a Fátima pedi que Nossa Senhora me dividisse oamor que tinha pelo noivo e desse metade a Jesus». E acrescenta com convicção:«mas Ele e Ela, a Mãe do céu, quiseram o meu amor por inteiro».
Há,no entanto, outras histórias vocacionais. A irmã Maria Alexandrina, com 74anos, natural de Guimarães, apresenta-se convictamente como uma das religiosasmais antigas da clausura de Braga. «Entrei com 15 anos para a Visitação»afirma.
Aalegria transborda dos rostos das religiosas e é impossível não sentir algumdesconcerto perante essa atitude. No alto dos seus 91 anos, a irmã Isabel,natural de Arouca, também conta com muita vivacidade peripécias do seunoviciado.
Independentementedas idades avançadas, posso certificar que as religiosas que estão na clausurado Mosteiro da Visitação de Santa Maria de Braga não são velhas. Podem seridosas na idade mas são muito jovens no pensar, muito alegres no modo de estar,sérias e comprometidas na espiritualidade e na oração, dinâmicas, totalmentevivas, na sua acção de dar a conhecer o mundo a Deus.
Sobreo modo de entrar neste mosteiro de clausura, a irmã superiora cita as Constituições: «Podem tornar-semembros da Ordem da Visitação as pessoas que decidiram, por um autênticochamamento de Deus, tender à perfeição do amor divino. Uma enfermidadecorporal, uma saúde fraca ou até mesmo uma idade avançada não são obstáculo,contanto que a candidata tenha um equilíbrio psíquico e nervoso normal eapresente todos os sinais de uma verdadeira vocação».
SãoFrancisco de Sales, ao fundar a Visitação, teve também em vista preencher umalacuna existente, visto que todas as Ordens claustrais de então, eram demasiadoausteras para estas pessoas e que se viam assim impedidas de responder aochamamento de Deus a viver uma vida toda entregue.
Efectivamente,o processo de entrada na Visitação, fundada há perto de 400 anos, é semelhanteao de qualquer outro instituto religioso.
Depoisde um contacto com a Mestra de Noviças e de acordo com a Superiora do Mosteiro,a candidata pode entrar para fazer a experiência real do que é viver emclausura e para um conhecimento mútuo.
Depoisda decisão de entrada inicia-se um tempo de formação que se vai prolongar porcinco anos e meio (postulantado, noviciado e votos temporários). Terminado estetempo de formação e discernimento mútuo, a candidata emite os votos perpétuosou retira-se.
Airmã Inês referiu que a Visitação deve ser das poucas ou talvez a única Ordemde clausura que, em virtude do direito e da intenção original do fundador,permite a entrada e permanência a senhoras e jovens desejosas de se recolher nosilêncio do claustro, para fazer um retiro espiritual. Evidentemente, aclara areligiosa, «nenhum mosteiro é obrigado a fazê-lo».
Quotidiano da clausura
Coma protecção de São Francisco de Sales e de Santa Joana de Chantal, fundadoresda Ordem, assistidas pela intercessão e exemplo de Santa Margarida MariaAlacoque, (a mais conhecida dasvisitandinas), as religiosas que estão em Braga repartem as horas do dia entretrabalho e oração.
Às7h00 em ponto tem início mais de duas horas seguidas de oração. Exposição doSantíssimo Sacramento, Ofício de Leitura, Meditação, Laudes e Tércia compõemesse espaço de tempo de oração matinal.
Depoisdo pequeno-almoço seguem-se os trabalhos ou ofícios: enfermaria, cozinha,rouparia, aviário, quinta e costura são algumas das ocupações das monjasvisitandinas.
Aoração de Sexta, do Ofício Divino da Liturgia das Horas, reúne-as quinzeminutos antes do almoço, que ocorre às 12h00, e ao qual se segue um espaço derecreio comunitário que termina pelas 13h45.
Apósa oração de Noa, às 14h00, o trabalho continua e só é interrompido por causa daleitura espiritual pelas 15h30 e que dura até às 16h00.
Às17h00 começa, então, a oração de Vésperas, seguida da recitação do Terço e deEucaristia, às 18h00, habitualmente presidida pelo capelão, padre José VitorinoVeloso.
Terminadaa Missa, mais meia hora de oração mental, uma vez que as orientações da Ordemdizem que as visitandinas devem fazer pelo menos uma hora e meia de meditaçãopessoal diária.
Ojantar é servido pelas 19h30 ao qual se segue novo tempo de recreio. O diatermina como começa, com a oração, neste caso as Completas, pelas 21h40. O descanso está previsto a partir das22h30. Começa um grande silêncio até ao fim de Tércia, numa repetição rotineiraque tem a marca de Deus.
Alvores da fundação
Nafundação da Ordem da Visitação de Santa Maria estão Francisco de Sales(1567-1622), Bispo de Genebra, e Joana Francisca Frémyot (1572-1641), baronesade Chantal.
Esseacontecimento reporta-nos à França de 1610, mais precisamente a Annecy(Sabóia), a 6 de Junho, solenidade da Santíssima Trindade.
Afinalidade da Ordem da Visitação de Santa Maria, no entender do fundador, foi«dar a Deus almas tão interiores que sejam julgadas dignas de O adorar emespírito e verdade».
Franciscode Sales não quis grandes mortificações corporais ainda que esse intuito fossevisto com maus olhos pela mentalidade daquela altura. No pensamento original, ofundador queria que as religiosas «tivessem os pés bem calçados mas o coraçãobem descalço e bem nu de afectos terrenos, que tivessem a cabeça bem coberta eo espírito bem descoberto por uma grande simplicidade e despojamento da própriavontade».
OBispo de Genebra, juntamente com a Madre de Chantal, pretendia na congregaçãouma «comunhão de caridade» na qual «as mais fracas gozarão do fruto da saúdedas robustas e reciprocamente as robustas gozarão do merecimento e da paciênciadas débeis».
Comesse intuito e para «homenagear Aquele que é mais do que Salomão», escolheu omistério escondido da visitação de Maria a Isabel para dar nome ao novoinstituto. As religiosas, desse modo, devem olhar o modelo de visitandina quefoi a própria Virgem Maria. «As irmãs participam na gratuidade da sua resposta,no deslumbramento do seu louvor, no seu zelo pela salvação do mundo», dizem as Constituições.
Instalação em Braga
Em1789 funda-se em Lisboa o primeiro Mosteiro ligado à Visitação dedicadoespecialmente ao Sagrado Coração de Jesus. Ao Porto, a Ordem chegou em 1879.
Comas perseguições de 1910, a comunidade dispersou-se por diversos países europeuse só em 1924 regressou a Portugal, desta vez a Braga, onde se fixou em Real(actualmente, Colégio de Nossa Senhora das Graças).
Nadécada de 50, a congregação adquiriu o palacete que era propriedade daFederação Nacional de Alegria no Trabalho (FNAT, actualmente INATEL),localizado em Maximinos, Braga. Depois de muitas obras foi transformado noactual mosteiro que recebeu a comunidade a 23 de Junho de 1956.
Margarida Maria e o Sagrado Coração de Jesus
É amais conhecida de todas as visitandinas. Nasceu no ano de 1647 e em 1971 entrouna Ordem da Visitação.
Depoisde uma infância atribulada e sofrida, Margarida Alacoque deu entrada noMosteiro de Paray-le-Monial.
Aquirecebeu uma série de revelações sobre a consagração e o amor ao Sagrado Coraçãode Jesus. A primeira foi a 27 de Dezembro de 1673, a segunda numa das primeirassextas-feiras de 1674 e a terceira durante o mês de Junho de 1675.
Faceaos obstáculos colocados à mensagem contida nestas revelações, o padre Cláudiode la Colombiere surge como director espiritual de Margarida Maria Alacoque ecomo grande propagador e apóstolo da devoção ao Sagrado Coração de Jesus que seinstituiu na Igreja universal muito por causa do impulso das experiências deMargarida Maria e da Ordem da Visitação.
MargaridaMaria morreu com 43 anos de idade, a 17 de Outubro de 1690. Pio IX beatificou-aem 18 de Setembro de 1864 e Bento XV canonizou-a no dia 13 de Maio de 1920.
Comemoração dos 400 anos da fundação
Em 2010celebram 400 anos de vida como Ordem religiosa. Será um ano de graça, dejubileu.
Anível geral da Ordem estão-se a estudar e a aprofundar os escritos dosfundadores. A irmã superiora refere que o mosteiro de Annecy, na França, acasa-mãe das visitandinas, está a preparar a publicação de obras dos fundadorescom linguagem mais actual, exemplo seguido por outros mosteiros.
Omosteiro de Braga tem alguns desejos que pretende concretizar. Antes de mais,publicar em português a biografia de São Francisco de Sales e de Santa Joana deChantal.
Airmã Maria da Conceição referiu que o aprofundamento dos escritos dosfundadores foi uma sugestão deixada pelo assistente geral, padre ValentínViguera Franco, aquando da passagem pelo mosteiro. Assim, «aprofundámos osescritos de São Francisco [de Sales] no ano passado e estamos a ler os escritosde Santa Joana». Estas são duas iniciativas internas e propedêuticas para acelebração dos 400 anos da fundação da Ordem.
Questionadasobre algum desejo especial para esse ano de comemoração, a superiora apontou oaparecimento de novas vocações religiosas. «Gostava de ver o noviciado comgente nova, a querer entrar para a clausura e espero que esta efeméride possacontribuir para isso mesmo».
Airmã Inês é da mesma opinião: «A Ordem foi fundada baseando-se no mistérioescondido da Visitação. Não significa isso que tenha de permanecer escondida nosentido de fechada, impenetrável». Por isso mesmo, espera que os 400 anos dafundação sirvam para fazer rejuvenescer a Ordem.
Espalhadapor quatro continentes, a Ordem tem 155 mosteiros. Dos três portugueses, doisestão localizados na Arquidiocese de Braga. Este, no centro da cidade, o outroem Vila das Aves. O terceiro encontra-se na Batalha.
Algumas normas sobre a clausura
ACongregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de VidaApostólica afirma na “Instrução sobre a vida contemplativa e clausura dasmonjas” (Verbi sponsa): «O mosteiro situado em lugar afastado ou no coração dacidade, com a sua estrutura arquitectónica particular, tem precisamente afinalidade de criar um espaço de recolhimento, solidão e silêncio, onde sepossa procurar mais livremente a Deus e viver não só para Ele e com Ele, mastambém exclusivamente d’Ele».
Apesardeste afastamento, desta renúncia a um certo activismo eclesial, as religiosasde clausura participam e comungam integralmente da vida e missão da Igreja. Avida contemplativa é precisamente o modo de serem Igreja, refere a mesmainstrução vaticana.
«Acontribuição concreta das monjas para a evangelização, o ecumenismo, ocrescimento do Reino de Deus nas diversas culturas é de ordem eminentementeespiritual, como alma e fermento das iniciativas apostólicas, deixando aparticipação activa para aqueles a quem compete por vocação».
As monjasoferecem ao mundo um «anúncio silencioso e um testemunho humilde» do mistériode Deus trinitário.


in Diário do Minho, suplemento Igreja Viva (texto e foto: José António Carneiro)
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