2008/06/11

Nossa Senhora - reflexões

 “Em Maria a Igreja alcançou a plenitude”
        Maria Mãe da Igreja no Pentecostes
 
Maria é hoje venerada por nós como Mãe da Igreja. Nela, a Igreja alcançou a máxima plenitude porque Ela é Mãe d’Aquele que trouxe plenitude à vida e que é a Cabeça da Igreja, da qual todos somos membros.
Maria é toda relativa a Cristo e, a partir de Cristo, relativa à Igreja. “Maria no mistério de Cristo e da Igreja. Ora, Jesus é o centro do Cristianismo, Maria é central, por ser a pessoa que está mais próxima deste centro. Neste centro devemos entender Maria inserida no mistério salvífico, na economia da Salvação. Maria é a pessoa que Cristo mais ‘incluiu’ na sua obra redentora. Assim se expressa Santo Arquelau, Bispo de Cascar e Diodoris, a Mani, em 277: “Se, como dizes, Cristo não nasceu, também não sofreu, pois o sofrer é impossível a quem não nasceu. Se Ele sofreu, é necessário fazer desaparecer até o nome da Cruz. Suprimindo-se a Cruz, Jesus não ressuscitou dos mortos. Se Jesus não ressuscitou dos mortos, ninguém ressuscitará. Se ninguém ressuscitará, não haverá julgamento, pois é certo que se eu não ressuscito, não serei julgado. Se não deve haver julgamento, é em vão que se há de observar os mandamentos de Deus; não há como nos obrigar a isso: ‘comamos e bebamos, pois amanhã morreremos’. Todas estas coisas se encadeiam para aquele que nega que Jesus tenha nascido de Maria. Se, ao contrário, confessas o nascimento de Cristo de Maria, a Paixão o segue necessariamente; a Ressurreição à Paixão; o Julgamento à Ressurreição; e todos os preceitos da Escrituras estarão salvos. Não se trata, portanto, de uma questão vã. Ela contém muitas coisas nesta única palavra (Theotokos). Como toda a Lei e os Profetas estão contidos no “duplo preceito” [amor a Deus e ao próximo], assim também toda nossa esperança está suspensa no parto da bem-aventurada Maria”.
Depois do evento da morte e da ressurreição, a Mãe solícita e solidária permanece com o grupo dos discípulos e como que o fortalece. De facto, vemos Maria no Cenáculo, no Pentecostes recebendo os dons do Espírito Santo que desceram sobre todos, em forma de línguas de fogo. Desse modo, nascia a Igreja, com a sua vocação apostólica e missionária. E assim Maria foi alçada ao posto de Mãe da Igreja.
Maria está presente nos primórdios da Igreja e ainda hoje a anima, orienta e inspira a sua caminhada. Tal como uma mãe a seus filhos é a grande companheira que segue junto com o povo fiel, paralela a seus passos, segurando as mãos, oferecendo conforto e conselho.
Maria é a mulher que está ligada à vontade salvífica de Deus. Mas a sua riqueza pessoal transcende a sua singularidade. A mãe de Jesus manifesta o amor do Pai, que se dignou assumir o homem exaltando-o por pura graça, pela encarnação do Filho de Deus no seio da Virgem Maria.
Segundo o desígnio divino, Maria forma parte da revelação de Deus à humanidade, unindo, deste modo, a participação activa da Igreja e do homem no acontecimento transcendente da realização da salvação. Maria está inserida no diálogo entre Deus e o homem. A mãe de Jesus aparece entre a aliança do Sinai e a nova e eterna aliança, no tempo em que se desenvolve a pedagogia divina, segundo a qual, a comunicação de Deus ao homem se faz gradualmente.
A sua maternidade sendo um dom, resultado de uma eleição divina, significa que Deus estabelece com Ela uma relação que pode ser descrita em termos de graça. Trata-se da graça da maternidade que afecta a Mãe de Deus (Theotokos), como uma realização natural do seu ser mulher. Desde a sua concepção, Maria está totalmente ligada a Deus, que torna possível que todo o ser desta Mulher se oriente para a geração da Palavra (Verbum, Logos) feita carne. Ela foi criada para esta missão. A obediência é uma manifestação da fé e entende-se como o consentimento e a realização da vontade salvífica de Deus na própria vida; a esperança é a entrega confiada, apesar da obscuridade e da falta de compreensão na vivência dos diferentes acontecimentos, pois Deus sempre cumpre a sua promessa de salvação; a caridade é a característica da missão de Maria relativamente a Deus e ao seu Filho, e a respeito de todos os homens.
A salvação é obra de Cristo, pelo que Maria não o pode substituir. A sua contribuição é de fé, de obediência, de oração, de sofrimento durante a sua vida terrena, e agora, na sua vida celeste, de intercessão materna, que se une à do seu Filho. E isto em ordem a todos os eleitos, como refere a Lumen Gentium: «Cuida, com amor materno, dos irmãos de seu Filho que, entre perigos e angústias, caminham ainda na terra, até chegarem à pátria bem-aventurada» (62).
Cristo é o caminho obrigatório, a porta para acolher a salvação (Jo 14, 6). O contributo de Maria para a história da salvação coexiste com a única mediação de Cristo, sem a obscurecer nem limitar, mas manifestando o seu valor e o seu poder. Como afirma o Concílio Vaticano II, a função salvífica da Virgem é cristocêntrica, deriva de Cristo e conduz a Ele, «deriva da abundância dos méritos de Cristo, funda-se na sua mediação e dela depende inteiramente, haurindo aí toda a sua eficácia; de modo nenhum impede a união imediata dos fiéis com Cristo, antes a favorece» (LG, 60).
A experiência de Deus, por parte de Maria, tem como fundamento a sua virgindade, a sua disponibilidade exclusiva para Deus. Trata-se de uma experiência de Deus baseada no despojamento prévio da experiência humana fundamental. Se Maria deu o seu “sim” incondicional à encarnação e a todas as suas consequências — entre as quais se encontra como a mais importante a cruz —, fê-lo em nome de todo o ‘género humano’, dos pecadores, dos que, enquanto tal, recusam a encarnação: «Veio ao que era seu e os seus não o receberam» (Jo 1, 11).
Maria é solidária com todos, precisamente porque foi concebida imaculada e por isso goza de uma infinita capacidade de doação e de amor. Mas se Maria dá o seu sim agradecido ao Salvador que vem, não o faz de modo algum para si mesma, mas, em princípio, por todos aqueles que têm necessidade da “salvação de Israel”. O despojamento de Maria, do qual o seu sim é consequência natural, permite-lhe experimentar o amor misericordioso de Deus, o que nela “fez maravilhas” e cuja “misericórdia se estende de geração em geração”. Maria viveu a condição de humildade que o Senhor exaltará. Ela foi a humilde escrava de Nazaré.
Maria representa toda a nova humanidade pois ela é não só o seio donde nasce o Verbo encarnado, mas também a primeira pessoa da nova criação e, portanto, seio materno do qual brotam os homens e mulheres que, como corpo de Cristo, constituem o novo Povo de Deus a caminho da Salvação.
Maria é Mãe da Igreja porque Mãe de Cristo e Mãe de Deus. Que sejamos alcançados pela sua maternal intercessão.

 “Eis o teu filho”
        As dores de uma Mãe
 
 
A solidariedade de Maria adquire a expressão mais dramática na “hora” dramática de Jesus: a morte na cruz. Aos pés da cruz, vislumbramos a Senhora trespassada pela dor. Mas, toda a vida de Maria é atravessada pela dor e, por isso, a veneramos e louvamos na terra como Mãe das Dores. É um título que nós dificilmente daríamos às nossas mães, embora todas experimentem o sofrimento e a dor. Mas, em Maria, o sofrimento foi um componente da sua vida, da compaixão com o seu Filho Jesus, o Homem das dores (Is 53).
O sofrimento de Maria, com e por Jesus, começou muito cedo. Logo no nascimento de Jesus: não encontraram hospedaria, nem acolhida. E São José, teve que procurar, nas cercanias e arredores de Belém, uma gruta para abrigo. Coube ao Filho de Deus feito homem nascer num lugar onde os animais eram recolhidos durante a noite. É claro que o coração da Mãe deve ter sofrido muito com isso.
Algum tempo depois, quando Jesus teria 2 anos de idade, Herodes empreende uma perseguição feroz contra Ele. Por ocasião da visita dos Reis Magos, sabendo que Jesus era o Messias, decide matá-lO. Maria e José fogem para o distante e desconhecido Egipto, terra da qual nem sequer conheciam a língua, levando consigo o Menino Jesus. Uma viagem longa, difícil, sofrida. Maria empreende-a por amor e pela segurança do seu Filho.
Aos 12 anos, Jesus sobe a Jerusalém para a festa da Páscoa, na companhia dos pais. Ao invés de voltar com eles, fica no templo. O sofrimento de Maria, diante da perspectiva de tê-lO perdido, lembra-nos a profecia de Simeão: "Uma espada de dor vai atravessar o teu coração, por causa desse Filho" (cf. Lc 2,34-35). Essa espada começava a sua trajectória, até ao mais íntimo do coração da Mãe. Ao terceiro dia, finalmente, encontram-nO. No meio dos doutores, discutindo, ensinando, perguntando, Jesus exercia a função de quem estava "na casa do próprio Pai".
A vida oculta de Jesus em Nazaré foi também, de certa maneira, um sofrimento para Maria. Se Ele era o Messias, como entender esse silêncio de quase 30 anos? Mas, um certo dia, Jesus anuncia-lhe a sua partida, para realizar a missão pela qual viera ao mundo: pregar o Evangelho. Ela deve ter aderido a essa missão imediatamente. E acompanhou seu Filho, desde a primeira pregação até à última palavra no alto da Cruz.
Maria, certamente, alegrou-se muito quando ouviu os ensinamentos de Jesus. No entanto, sofre ao perceber a repulsa à mais bela proposta de felicidade, hoje consubstanciada nos Evangelhos. Por mais que a linguagem do Filho tenha sido extraordinariamente bela e transcendente e, ao mesmo tempo, humanamente acessível, sempre havia quem se lhe opusesse. As autoridades, os fariseus, os chefes, os escribas, os doutores, procuravam constantemente alguma coisa para contradizê-lO e acusá-lO. Possivelmente, já sabiam que Ele era o Messias e não se contentavam apenas em persegui-lO, propondo-Lhe armadilhas, quando Ele pregava. Começaram a conspirar para matá-lO.
Maria vivia na ansiosa expectativa de quando e como isso ocorreria, até que Jesus se dirigiu ao Horto das Oliveiras. Ela deve ter acompanhado, de longe, seu Filho que sofria, antevendo a própria Paixão e Morte, em terrível agonia. Nessa mesma hora, Jesus é preso e levado ao Sinédrio. Condenado por esse júri forjado, foi logo levado à flagelação e coroação de espinhos.
Foi grande o sofrimento de Maria, ao ver o sangue de Jesus verter sobre a terra, a escorrer pelos lajedos daqueles lugares tétricos, onde eram supliciados os réus, ou os inocentes, injustiçados como Ele. Maria recolhe esse sangue, herdado dela, mas que, unido à Pessoa do Pai pelo Filho, se torna sangue divino e redentor.
Maria assiste, na manhã seguinte, à triste cena da condenação oficial de Jesus por Pilatos, que lava as mãos em sinal de covarde omissão.
Logo depois, começa a triste marcha para o Monte Calvário, a trajectória da Via Crucis, a via do sofrimento último. Nas curvas desse caminho, a Mãe deve ter encontrado o Filho. Por breves trocas de olhares, Ela O conforta, assegurando-lhe que está com Ele. Embora sem levar a cruz ao ombro, como o Cireneu, Ela carrega com Ele todo o seu sofrimento, até à consumação pela morte. Mas, também o Filho a conforta porque Ele vai “renovar todas as coisas” (Ap)
Durante a crucifixão, cada pancada, pregando com cravos as mãos e os pés do Filho, era um golpe no coração da própria Mãe. A agonia durou três horas. Jesus, levantado na cruz, pendente entre o céu e a terra, com os braços abertos como um arco-íris de paz sobre o mundo, exclamou: "Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem" (Lc 23,34). Nessa cena, São João descreve Maria de pé, junto à Cruz, jamais deixando-se abater, nem pelos mais insuportáveis sofrimentos. Jesus, já quase sufocado pelo sofrimento e pela dificuldade de respirar, ainda lhe confia João como filho e, na pessoa do evangelista, essa filiação foi estendida a todos nós. "Mulher, eis o teu filho” (Jo 19). Palavra solene, carregada de dor mas de total confiança. Jesus sabe, em todos os momentos, a fé da Sua Mãe. Ainda que desfeita pela morte do Filho, Maria, de pé, como que ressuscitada, confia na promessa: de ti sairá um rebento que será o Salvador.
De facto, a dor da perda do Filho feriu brutalmente o coração de Maria. Porém, a fé que nela habitava, fazia-a crer que a morte de Jesus não seria o fim e acreditava que Deus teria uma resposta para tudo aquilo. Cristo Ressuscitado é a resposta esperada, a confirmação da certeza há muito sabida no coração daquela que nunca deixou de acreditar e que é bem aventurada por todas as gerações.
Santo Inácio de Loyola, nos seus Exercícios Espirituais, leva-nos a contemplar o encontro entre a Mãe e o Filho Ressuscitado. Santo Inácio chama a atenção para a relação dos dois e a sua intensidade, deixando claro que é de se esperar que entre aqueles que tinham tal intimidade e que viviam envolvidos em tal amor, que a primeira aparição de Jesus após Sua ressurreição – ainda que não relatada nos Evangelhos – teria sido à sua Mãe. E é razoável e até inteligente aceitar essa ideia. Não só por Jesus ter sido um bom filho e desejar terminar com a dor da sua mãe, mas pelo mérito próprio de Maria: é justo que aquela que primeiro aceitou fazer a vontade de Deus e que com seu “sim” mudou a história humana fosse a primeira portadora da novidade – a vida venceu a morte!
Ninguém sabe como foi aquele encontro. Ninguém sabe o seu conteúdo. Podemos apenas crer nele e vê-lo com os olhos da fé e da imaginação. É uma contemplação riquíssima: Mãe e Filho livres da dor e do sofrimento, perdidos no tempo a conversar sobre todos os acontecimentos, cheios de alegria, consolo e glória.
A certeza da ressurreição de Cristo não ficou apenas no encontro entre Mãe e Filho. Maria experimenta primeiro a glória de Deus e logo sai em missão: tendo visto o Filho vivo é também portadora da maior notícia já ouvida pelos homens – Jesus está vivo e é preciso trabalhar por Ele dando testemunho da sua ressurreição.
Por isso, naqueles primeiros momentos após a ressurreição de Jesus, Maria vai-se unir aos apóstolos e será de fundamental importância junto do grupo dos amigos de Jesus. Mãe do Mestre e, por consequência, Mãe daqueles homens confusos pela transformação ocorrida em suas vidas, Maria será quem primeiro conduzirá o grupo, fazendo-o compreender a mensagem daqueles dias. Não é por acaso que estará com os discípulos aquando da vinda do Espírito Santo no Pentecostes. O impacto da ressurreição de Jesus na vida da Sua mãe produz um efeito cicatrizante naquele coração ferido e trespassado. Maria será, então, capaz de testemunhar vivamente a experiência daquele que viveu a vitória sobre a morte e, assim, torna-se Mãe da humanidade.
Ela compreendeu o mistério que cercou a ressurreição de Jesus e nos ensina a compreendê-Lo, mostrando a actualidade daquele acontecimento perdido num túmulo de Jerusalém e que continua hoje a acontecer, silenciosa e gloriosamente, em cada vida que renasce, não da morte física, mas da morte do pecado.
Por tudo, a Mãe das Dores, a Senhora da Piedade, é Mãe da Confiança no Ressuscitado. Em seu coração, Maria confia e tem fé: Ela sabe que depressa virá o terceiro dia e como tal permanece fiel até ao fim, até ao extremo. "Feliz aquela que acreditou em tudo o que lhe foi dito da parte do Senhor!" (Lc 1,45).

 “Não têm vinho”
        Maria nas Bodas de Canã
 
            A aceitação de Maria como intercessora da humanidade junto a Deus vem da sua própria participação na vida pública de Jesus. Em especial, o episódio das Bodas de Caná, nos mostra claramente como a Mãe de Jesus actua junto àqueles que dela necessitam. Ele é Mãe de clemência e de esperança, como cantávamos.
            S. João começa por dar conhecimento da presença da Mãe de Jesus, do próprio Jesus e dos seus discípulos na festa do casamento. Eles eram os membros do povo judeu, fiéis à revelação e à lei mosaica. Eles eram os restos fiéis do povo eleito.
Maria, a dado passo, percebe que o vinho está para acabar e por isso, cheia de zelo e de prestimosa caridade, observa a Jesus: “Não têm vinho” (Jo 2, 3). Para evitar que os anfitriões passem vergonha diante dos convidados, pede a seu Filho o milagre. Veladamente, mas certa de que Ele o é capaz. Este pedido de Maria a Jesus traduz a sua relação maternal com a humanidade. Amor materno que antevê a aflição dos filhos, que procura diminuir-lhes o sofrimento, que quer desde sempre dar-lhes o que de melhor puder dar. Diz o Beato José Maria Escrivã: “É próprio de uma mulher [mãe] e de uma solícita dona de casa notar um descuido, prestar atenção a esses pequenos detalhes que tornam agradável a existência humana: e foi assim que Maria se comportou”. É assim que Maria intercede junto a Deus pela humanidade, como se dissesse constantemente: “eles não têm mais vinho”, sugerindo ao Senhor que resgate aos homens e mulheres a alegria perdida no meio dos seus sofrimentos e os conduza à felicidade e à salvação.
A resposta de Jesus à sua Mãe, à primeira vista, poderia parecer dura mas só àqueles que não possuem uma verdadeira compreensão da Escritura. Disse Ele: “Mulher, que tem isso a ver contigo e comigo? Ainda não chegou a minha hora”. (Jo 2, 4).
Ora, examinando-se melhor a resposta de Jesus, podemos ver como ela é, de facto, elogiosa para Maria. Em primeiro lugar, convém lembrar que Ele a chamou de “mulher”, também no Calvário, dizendo do alto da Cruz: “Mulher, eis o teu filho” (Jo 19, 26), como veremos adiante.
Chamando-a de “mulher”, Ele fala como Deus fala às suas criaturas. Mas, ainda mais importante do que isso, Jesus chama sua Mãe de “mulher”, para que todos reconheçam nela aquela “mulher” que profetizou no Génesis, quando amaldiçoou a serpente dizendo: “Farei reinar a inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta esmagar-te-á a cabeça e tu tentarás mordê-la no calcanhar”(Gn 3, 15) ou então a “mulher” que esmagou a cabeça da serpente, como relata o Apocalipse, ao consentir o nascimento do Menino, o Filho de Deus. E assim como de Cristo se disse bem propriamente “Eis o Homem” (Ecce Homo), assim também é próprio dizer da Virgem Maria Mãe de Deus “Eis a Mulher” (Ecce Mulier), aquela que possui as duas perfeições mais importantes da “Mulher”: ser Mãe e ser Virgem.
Depois, voltando àquela festa de Caná, Maria irá advertir os serventes: “Fazei o que Ele vos disser” (Jo 2,5). E é ensinando àqueles homens que fiquem atentos ao movimento de seu Filho que Maria irá tornar-se também intercessora de Deus junto à humanidade. O milagre não aconteceria se os serventes não ouvissem e obedecessem ao que Jesus lhes indicaria adiante.   Por isso, era necessário que um canal de comunicação se abrisse entre a divindade e a humanidade. E, em Caná, Maria foi essa via comunicadora de vida nova que age movida por uma “caridade preventiva”.
Se Maria pediu o milagre por caridade material, Ela imediatamente dá aos servos do noivo um conselho que serve para todos nós: “Fazei tudo o que Ele vos disser”. Por este motivo também, não é sem razão que a Igreja a chama de Mãe do Bom Conselho. Não só ela foi Mãe do Conselho de Deus Altíssimo, como é Mãe que continuamente só nos comunica bons conselhos e aspirações.
Vendo nossas aflições e respondendo com o pedido de que façamos o que Jesus nos disser, Maria se torna intercessora de Deus junto da humanidade. Essa frase afirmativa aproxima o homem do desejo de Deus de tê-lo perto do mistério divino.   Tal como em Caná, o milagre não poderá acontecer se não tivermos olhos e ouvidos abertos para fazer o que o Senhor nos diz. Com Deus, participamos do milagre de fazer vida nova no mundo e é Maria quem nos conduz nesse mistério de amor e construção.  
Esta Mãe solícita e atenta, presente e actuante na vida dos homens, que é Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe, foi ornada com os versos do poeta Dante, na sua Divina Comedia:
Mulher, és tão grande e tanto vales
que, quem graça e a ti não recorre,
seu desejo é o de voar sem ter asas.
A tua benignidade não só socorre
a quem pede, mas muitas vezes,
generosamente, ao pedir, precede.
Em ti, misericórdia, em ti, piedade,
em ti, magnificência, em ti se reúne
tudo quanto na criatura há de bondade!
(Dante Allighieri, Divina Comedia, Paradiso, XXXIII,13-21)

 “Faça-se em mim segundo a vossa vontade”
      A Senhora na Anunciação na Visitação e no Nascimento
 
 
            “Faça-se em mim segundo a vossa vontade”. Este é o harpejo confiante que ecoa de Maria, a menina de Nazaré. Funciona como programa de toda a sua vida; o cumprimento da vontade de Deus é a sua missão primordial. Ela é escolhida, vocacionada por Deus que fez dela o primeiro sacrário da terra a albergar a divindade, e por isso Ela recebeu o título de Nossa Senhora da Anunciação.
            O anúncio do Anjo à menina de Nazaré, de nome Maria, no dizer de Bento XVI, marca o início de um novo tempo para o povo de Deus, pois é o cumprimento do Antigo Testamento com a abertura do caminho para o Reino de Deus à luz da Boa Nova, para toda a Humanidade. De facto, a Anunciação do anjo a Maria marca o início da Redenção humana.   Com seu “sim”, Maria divide a história da humanidade em antes e depois, em velho e novo.   Ao aceitar o projecto de Deus, Maria insere-se definitivamente na aliança de Deus com seu povo: através dela o Filho de Deus se fará homem e se fará presente e actuante em seu tempo e por toda a eternidade.
            Maria era uma jovem adolescente, simples e virgem, prometida a José, um carpinteiro descendente da casa de David.  Perturbou-se ao receber do Arcanjo aquela estranha saudação: “Salve, cheia de graça”. Diz o Bispo S. Sofrónio a respeito de tal palavra, num Sermão sobre a Anunciação: “que pode haver de mais sublime do que esta alegria, ó Virgem Maria? […] Nada se pode comparar com a maravilha que em Vós se contempla, nada há que iguale a graça que possuís”. D. Hélder Câmara diz, sobre a graça que Maria recebe, numa poesia:
Gratia plena
Teu Filho nasceu
e continuas grávida
cheia de graça
cheia de Deus.
                 (D. Hélder Câmara, 1962)
 
Maria é, de verdade, cheia de Deus e o Pai dependeu do seu consentimento para realizar o Mistério para a nossa Redenção, por meio de seu Filho Jesus, nascido do seio de Maria.
            A Virgem Maria aceitou, demonstrando toda confiança no Senhor Deus e se fez Instrumento Divino nos acontecimentos proféticos. Mas teve de perguntar como seria possível, se não conhecia homem algum. A pergunta não tem o intuito de contestar, mas de saber como seria feito, e o que deveria fazer.  A jovem menina de Nazaré consegue perceber, nas palavras do mensageiro, a certeza da presença de Deus. Assim, abre seu coração e seu corpo ao extraordinário, àquilo que assombrará a humanidade por gerações: seu corpo virgem gerará uma vida – mistério insondável de Deus, revelação suprema do Seu poder em tornar possível o impossível aos olhos humanos. Por isso, Maria responde ao chamamento com a mesma simplicidade da sua vida e fé: “Eis a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a vossa vontade” (Lc1,38).
            Com esta resposta,  Maria aceitou dignamente a honra de ser mãe do Filho de Deus, mas ao mesmo tempo também aceitou os sofrimentos, os sacrifícios que estavam ligados a esse sim, que tem a “marca do eterno e do definitivo” no dizer do Cardeal Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo.
            É extremamente interessante notar que, depois do Espírito Santo fecundar Maria, conforme as palavras do Anjo, Maria, já grávida, se coloque a caminho para ir visitar a sua prima, grávida na sua velhice.
            Maria partiu apressadamente para a casa de Isabel (Lc 1, 39) e já sabia, do diálogo com o anjo do Senhor, que ela também esperava um filho (Lc 34-37).   Devemos entender o gesto da jovem menina que visita a mais velha como um gesto de serviço. Mas, podemos imaginar aquelas duas mulheres sentadas à beira do fogo, descansando dos afazeres, a partilhar seus sentimentos, como que procurando entender o que lhes estava a acontecer, louvando a Deus que tudo pode, cúmplices de um mistério que só os seus corações e ventres eram capazes de entender. E Maria comprova assim a sua vida de solidariedade, de serviço, de amor: não está só no dar coisas materiais a verdadeira solidariedade. Maria não dá coisas, dá-se a si mesma, por companheira, por ouvinte. Isto é possível para quem confia totalmente no Senhor e para quem se sente pequeno, dependente e frágil. Comenta São Francisco de Sales: “Na Encarnação Maria humilha-se confessando-se a serva do Senhor... Porém, Maria não fica só na humilhação diante de Deus, pois sabe que a caridade e a humildade não são perfeitas se não passam de Deus ao próximo. Não é possível amar a Deus que não vemos, se não amamos os homens que vemos. Esta parte realiza-se na Visitação”.
            Isabel sente-se privilegiada com a visita da sua parenta. Exclama, exultante: “bendita és tu entre as mulheres”. O Bispo S. Sofrónio diz que Maria é bendita porque transforma em bênção a maldição de Eva; porque por meio dela estendeu-se no mundo a bênção do Pai; porque, permanecendo Virgem, concebeu o fruto que derrama bênçãos sobre todos; porque, embora sendo mulher por condição natural, será Mãe de Deus, Mãe do Verbo encarnado que derrama luz divina sobre as trevas mundanas.  
            Esta solidariedade da menina, da mãe e da mulher que é Maria concretiza-se também no nascimento de Jesus em Belém. Ao partir com José para Belém, para fazer o recenseamento que o imperador havia decretado terminam os dias e Jesus nasceu. Colocado na manjedoura, por não haver lugar na hospedaria – estranho destino de Deus que não tem lugar no mundo que vem salvar – envolveram-No em faixas. De repente, o céu se encheu de luz – a Luz nasceu, veio ao mundo – e pastores começaram a aparecer para visitar aquele Menino.
            Naqueles primeiros dias de vida de Jesus, muitos terão acorrido à gruta de Belém: pastores e reis, ricos e pobres, gente de lugares e costumes diferentes. E ali, junto ao Menino, uma figura silenciosa tudo via, tudo guardava, tudo agradecia: Maria, a jovem mãe, que a todos acolhia e com todos partilhava seu maior segredo – o filho de Deus!
            Dividida entre os afazeres primeiros de uma mãe e as tantas pessoas que queriam ver o Menino, Maria ainda meditava: o que significava tudo aquilo? O que Deus lhe estava a dizer através do rumo daqueles acontecimentos? Numa hora chegavam simples pastores; noutra, reis do Oriente. Podemos imaginá-la ora serena, ora assustada. Ora cúmplice de José na descoberta dos desígnios de Deus para aquela família. Ora apoio do mesmo José quando da difícil decisão de deixar a terra natal para viver no Egipto em nome da segurança de seu Filho. Está, pois, totalmente entregue às maravilhas de Deus, totalmente entregue aos sentimentos da maternidade. Totalmente entregue a seu Filho e Senhor.
            A mãe do Menino soube ouvir profecias e oferecer sacrifícios como mandava a lei de seu povo. A mãe soube ser Mãe da humanidade inteira nos primeiros momentos da vida humana de Jesus: a todos permitiu chegar perto, a todos permitiu também ver as maravilhas. Intercessora desde o primeiro instante, abriu caminhos, deu acesso. Totalmente mulher, totalmente entregue à humanidade por seu Filho.
            No entanto, o inesperado aconteceu: o Filho amado de Maria vai embora, parte para o mundo, para fazer as coisas de Seu Pai. Primeiro encontrará João, o primo que baptiza nas águas do rio Jordão e, confirmada a sua Missão, sairá pelas estradas da Palestina a pregar, curar e transformar a vida das pessoas que Lhe cruzam o caminho.
E a Mãe?  A mãe ficará em casa, sem conhecer o seu destino, mas sabedora de Sua Missão.  Acompanhará em silêncio a jornada de Seu Filho.  Alegrar-se-á com a firmeza de Seus passos. Será cúmplice de Suas palavras. No seu íntimo, a Mãe experimenta um misto de sentimentos: orgulho, medo, insegurança, consolação... No seu íntimo, descobre-se uma vez mais filha de Deus, fiel à vontade do Pai, serva do seu Senhor.
Jesus parte mas terá Maria como presença constante. A mãe ensinou-Lhe a estar no meio dos homens, ensinou-Lhe a ler, a escrever. A mãe contou-Lhe histórias sobre aquele povo e sua caminhada à procura da Terra Prometida e sobre a sua espera do Messias. A mãe falou-Lhe do sofrimento daquela gente humilde, ensinou-Lhe a compadecer-Se dela e a estar ao serviço, sempre.
Um e outro experimentarão o vazio e a saudade da presença física. Um e outro experimentarão a alegria de se saberem fazedores da vontade do Pai. Um e outro experimentarão a cumplicidade por entenderem o convite do seu Deus.  Um e outro marcarão definitivamente a vida da humanidade.  O Filho parte, mas deixa com a Mãe a certeza de que Ela o preparou para a Missão maior. A Mãe fica, mas o Filho leva no seu coração todas as palavras, todo o ensinamento, toda a lembrança dos dias de Nazaré que a Mãe dedicou ao Seu crescimento e formação. Um e outro unidos para sempre na construção do Reino de Deus junto à humanidade.
Esta é Maria, a Menina, a Mãe e a Mulher que vive a solidariedade em todos os momentos. Na sua escola, temos muito a aprender.


Escrito por JAC em 14:55:53 | Link permanente | Comments (0) |

2007/07/14

Homilia XV Domingo do Tempo Comum

Próximo por amor

 

 

  1. “Que hei-de fazer para receber como herança a vida eterna?”

     

 

“Que hei-de fazer para receber como herança a vida eterna?” Esta pergunta serve de mote e dá-nos o sentido de toda a Liturgia deste XV Domingo do Tempo Comum. A pergunta que o Doutor da Lei faz a Jesus não é académica nem retórica mas sim uma pergunta de sentido que põe em jogo a finalidade da existência humana.

 

Permitam-me aflorar este Evangelho tradicionalmente chamado de Evangelho do “Bom Samaritano”.

 

Lucas apresenta, antes de mais nada, um Doutor da Lei portanto, um judeu justo, não pecador. Põe-lo a inquirir Jesus com elevada fineza teológica aliás, própria de um profundo conhecedor da Lei de Moisés. “Que hei-de fazer para receber como herança a vida eterna? Reparemos que não diz merecer mas sim “herdar”. Ora, todos sabemos que a herança é algo que não se conquista nem se ganha mas, recebe-se de modo absolutamente gratuito, como dom.

 

Jesus põe o Doutor da Lei a fazer o que ele mais gosta ou seja, a falar e a consultar a Lei. Evidentemente, a resposta que ele dá a Jesus é perfeita e completa mas também previsível. De facto, se a vida eterna fosse meramente uma questão jurídica, de leis portanto, este Doutor seria aprovado com nota máxima, academicamente summa cum laude.

 

Jesus reconhece a resposta do Doutor. Mas não se fica pelo conhecimento teórico da lei. Jesus acrescenta “faz isso e viverás”. Faz! Pratica! Não basta saber! É preciso fazer! E isto não é, de modo algum, um incentivo ao activismo estéril e difuso mas a tomar consciência que a vida deve comprovar e testemunhar o conhecimento que temos da Palavra de Deus.

 

O Doutor da Lei quer, no entanto, saber até onde deve levar a prática da lei e, por isso, pergunta “quem é o meu próximo” ou seja, até onde devo amar ou, ainda pior, a quem devo amar. Ele quer estabelecer os limites e os privilégios do seu amor.

 

[Era comummente aceite entre os doutores e mestres de Israel que estavam excluídos da categoria de “próximo” todos os inimigos. É, portanto, neste contexto que Jesus vai contar a parábola do Samaritano.

 

Antes de entrarmos um pouco na parábola convém esclarecer ou elucidar da hostilidade entre judeus e samaritanos. De facto, as relações destes dois povos foram, ao longo da história, muito conflituosas. 

 

Para um judeu o termo “samaritano” era equivalente a um insulto como bastardo, renegado, herege, excomungado. Do lado dos samaritanos, o ódio pelos judeus era da mesma proporção e pautado pela mesma moeda.

 

Ora, Jesus escolhe efectivamente um samaritano para a parábola que conta. Claro que a escolha é intencional. Jesus não responde directamente à pergunta do Doutor da Lei mas vais deixar que seja ela a tirar as dilações finais.]

 

 

  1. A parábola do “bom” Samaritano – alguns pormenores e pormaiores

     

 

         “Um homem” atravessava a perigosa estrada de Jerusalém para Jericó. Não identifica o homem. Diz simplesmente que é “um homem” apanhado pelos bandidos. O texto mostra as suas qualidades naquele momento: está “meio morto” portanto, ferido, abandonado e necessitado de ajuda.

 

         Passam, “por coincidência”, um sacerdote e um levita pelo caminho. Vejamos primeiro: “por coincidência” é muito significativo uma vez que não precisamos de ir à procura do irmão necessitado já que as circunstâncias da vida fazem com que os encontremos todos os dias. Então, por aquela mesma estrada passam um sacerdote e um levita e ambos passam ao lado, desviando-se do moribundo. Quer um quer outro exercem funções litúrgicas no Templo de Jerusalém; quer um quer outro conhecem bem as coisas de Deus; lidam diariamente com elas mas afinal de contas nada sabem de Deus porque nada sabem de amor, de misericórdia, de compaixão, de solidariedade. A religião que vivem estes “homens da Igreja” é oca, vazia, estéril, faustosa e solene mas nada tem a ver com o amor, com o coração esquecendo a compaixão, o primeiro dos sentimentos de Deus (cf. Ex 34, 6).

 

         É aqui que entra em cena “um samaritano”. Não se diz se é bom ou mau. Basta que seja “um samaritano” para acudir com amor o moribundo. A acção deste samaritano é minuciosamente descrita por Jesus. O samaritano segue o seu coração, esquece-se de si para servir o necessitado. E faz tudo isto movido por compaixão, porque passa junto dele, porque se aproxima e porque pára.

 

         Deste modo, depois da parábola, Jesus responde ao Doutor da Lei com outra pergunta como que virando o bico ao prego: “qual dos três te parece ter sido o próximo daquele homem?”. E com dificuldade, o Doutor da Lei lá reconhece, mesmo sem pronunciar o nome do samaritano, o que percebemos. Jesus (re)centra o problema: não está no saber até onde vai o limite de próximo, quem se deve considerar próximo mas sim em quem se torna próximo demonstrando ter assimilado o comportamento compassivo e misericordioso de Deus. O centro desta questão não está na vontade ou na escolha de cada um. Está na necessidade do outro que se torna totalmente uma responsabilidade para cada um.

 

 

  1. “Então vai e faz o mesmo”

     

 

         Jesus termina com este imperativo categórico ao modo kantiano. É o desafio de todos os tempos. Foi desafio para o Doutor da Lei como o é para nós neste século XXI. Para se “herdar” a vida eterna é necessário tornar-se, todos os dias, próximo do necessitado, por amor e compaixão, sabendo que o amor a Deus já está subentendido previamente.

 

         É hora de perguntarmos e pararmos: na minha vida concreta de quem me faço próximo, por amor e por compaixão? Pensemos nisto e conformamos a nossa vida sempre com a Palavra de Deus.

 

 

Diác. José António Carneiro       

 

Escrito por JAC em 22:31:52 | Link permanente | Comments (0) |

2007/06/28

Homilia Domingo do Pentecostes 2007

  1. Intróito: O prometido é devido…

     

Já lá vão 50 dias desde que celebramos a Páscoa, a Ressurreição de Jesus.

 

A festa do Pentecostes marca o encerramento do Tempo Pascal.

 

A intenção desta festa passa por cumprir aquilo que havia sido prometido: Jesus tinha dito que depois da sua partida enviaria o Espírito Santo, para continuar, por meio Apóstolos, a sua missão com um alento e uma energia novas.

 

 

Diante desta Liturgia da Palavra riquíssima gostaria de centrar a minha reflexão na 1ª leitura e no Evangelho. Uma e outro nos relatam o dom do Espírito Santo dado pelo Pai, por meio de Jesus, aos Apóstolos. Esta festa do Pentecostes, como nascimento “oficial” da Igreja de Jesus Cristo, deve levar-nos por isso, a uma reflexão centrada na Igreja, que olhe a Igreja que somos chamados a ser neste século XXI, cheio de desafios inquietantes e exigentes.

 

 

  1. 1ª leitura

     

         Não é uma crónica jornalística mas sim uma catequese de Lucas sobre a Igreja e sobre a experiência do encontro com o Ressuscitado. Para Lucas, a Igreja é a comunidade que nasce de Jesus Ressuscitado e que é assistida pelo Espírito Santo. Ou seja, a comunidade forma-se depois da ressurreição de Jesus Cristo ser experimentada e acreditada pelos discípulos e depois destes receberem o dom do Espírito.

 

         Lucas coloca precisamente o dom do Espírito Santo na festa do Pentecostes. Esta festa, celebrada 50 dias após a Páscoa, era inicialmente de cariz agrícola pois agradecia a Deus as colheitas; depois tornou-se a comemoração histórica que celebrava a aliança de Deus com os homens por meio de Moisés ou seja, o dom da Lei, no Sinai. Por isso, a intenção de Lucas ao colocar o dom do Espírito, no Pentecostes, é mostrar que o Espírito Santo é a lei da nova aliança iniciada por e em Jesus Cristo.

 

         A partir desta leitura, podemos tirar algumas dilações e conclusões sobre o que deve ser a Igreja nos nossos dias, neste século XXI:

 

  • Comunidade de irmãos – dos que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática pois ser Igreja é permanecer fiel à comunidade

     

  • Reunidos em torno de Cristo – para fazer memória dEle

     

  • Animada e guiada pelo Espírito Santo – Ele é o verdadeiro protagonista da vida e da acção da Igreja. Deus conta com a nossa colaboração mas a iniciativa é sempre do Seu Espírito. 

     

  • Espaço de solidariedade e de partilha – casa para todos mas só alguns a aceitam

     

  • Universal e sem fronteiras, capaz de levar a sua mensagem a todos os povos e culturas.

     

  1. Evangelho

     

João coloca o dom do Espírito Santo no próprio dia da Ressurreição, da Páscoa. Por isso, nos apresenta a comunidade dos Apóstolos que vive o desalento, o desencanto e a frustração pela morte d’Aquele em quem haviam depositado toda a sua segurança e esperança.

 

        

 

Os discípulos estão medrosos, inseguros, fechados em si mesmos. Eles sentem-se órfãos abandonados e derrotados. Por isso, é que as portas estão fechadas.

 

        

 

Jesus, pela ressurreição, inaugura um novo estado, uma nova etapa. Diante das inseguranças dos discípulos, Ele propõe e oferece-lhes a paz, a tranquilidade, a serenidade. Como que dissesse a cada um deles, como a nós: “Tende confiança, eu venci o mundo”. A morte, afinal, não é a última palavra: a vida venceu.

 

 

Jesus, no entanto, traz em si os sinais e as marcas da cruz para dizer que é o mesmo que morreu… A vitória da vida, a ressurreição vem depois da morte e da cruz.

 

 

Jesus cumpre a promessa: dá o Espírito Santo, o Defensor, Aquele que ensina e recorda toda a sua mensagem. Neste dom do Espírito, há como que uma nova criação, uma recriação: Jesus sopra sobre eles como no relato da criação onde Deus sopra para dar vida. Deste modo, Jesus transforma o velho em novo, aqueles discípulos abatidos e sem esperança em audazes testemunhas da sua mensagem de vida para todos os homens.

 

 

Diante deste Evangelho, somos convidados e desafiados por Jesus à missão e ao anúncio. Ele diz-nos hoje “também Eu vos envio a vós” (ver o cartaz da comunidade). Jesus quer-nos comprometidos na sua missão e ser cristão, no nosso tempo como sempre, é ser evangelizador. Para isso, temos necessidade de saber abrir as portas da Igreja aos que vêm a ela, porque a Igreja é casa para todos ainda que só alguns a aceitem e reconheçam como tal e, também abrir as portas para que nós que já vimos à Igreja possamos partir para levar a mensagem de paz de Jesus Ressuscitado. Ou seja, a Igreja deve viver nesta dupla dinâmica: manter as portas abertas para todos, porque todos são bem-vindos e também ter as portas abertas para que dela possamos sair renovados e fortalecidos afim de anunciarmos pela nossa comunidade e pelo nosso meio ambiente a mensagem de Jesus Cristo.

 

 

Nesta consciência missionária que a Igreja é chamada a ter, é importante esta dinâmica do abrir as portas de par em par a todos e também ao Espírito de Deus que a guia e sustenta, mas também é importante e necessário saber fechar as mesmas portas da Igreja a ventos que não lhe sejam favoráveis e adjuvantes.

 

 

  1. Abrir e fechar portas…

     

 

A respeito desta necessidade da Igreja abrir e fechar as portas, consoante os ventos que sopram, gostaria de terminar esta reflexão, e sem me alongar mais, com uma pequena história que caracteriza bem este modo de estar da Igreja sempre e no século XXI.

 

 

“Certo peregrino, entrando num bosque, procurava um lugar onde pernoitar. Ao longe, descortinou um telheiro e para lá se dirigiu. Passaria a noite mais protegido, pensou. O telheiro fazia parte do que fora um templo. Era uma antiga Igreja em ruínas. Colunas truncadas, peças de escultura espalhadas por aqui e por acolá. Não foi difícil ao peregrino concluir que tinha havido ali uma Igreja, centro de uma antiga e grande comunidade.

 

 

- Mas porque ruíra aquela Igreja? Interrogava-se o peregrino. Quem terá feito isto? Uma guerra, um ataque a um alvo errado, um atentado

 

Até que sentiu brotar do silêncio, uma voz que lhe falava e dizia:

 

- «A ruína começou pelas portas».

 

O peregrino aproximou-se do lugar donde vinha a voz. A pedra angular, meio soterrada e meio coberta pelo silvado, repetiu:

 

- «A ruína começou pelas portas» …

 

- Mas porquê? Como assim? Perguntou o peregrino.

 

- «Porque estavam abertas, quando deviam estar fechadas;

 

porque estavam fechadas quando deviam estar abertas;

 

e porque deixaram entrar todo o tipo de vento»”.

 

 

Creio, caros irmãos, que esta deverá ser a grande aprendizagem da nossa vida e da vida da Igreja que somos. Saber manter as portas abertas ou fechadas, distinguindo e discernindo com sabedoria a origem e a natureza dos ventos. A Igreja está no mundo como sinal da presença de Deus e tudo deve fazer para que a sua única razão de existir seja, de facto, Deus e o seu amor por cada um de nós, suas criaturas manifestado e revelado em Jesus Cristo , por meio do Espírito Santo.

 

 

Que o Espírito Santo, nesta festa litúrgica do Pentecostes, e que hoje recebemos como dom do alto, nos santifique e fortaleça a nossa missão de testemunhar Jesus Cristo vivo e ressuscitado ao mundo de hoje, sem medos e não conhecendo fronteiras.

 

Escrito por JAC em 08:54:13 | Link permanente | Comments (0) |

2007/06/27

Homilia na Solenidade do Nascimento de S. João Baptista 2007

 

Aprender com quem sabe:

 

ser profeta e testemunha como João Baptista

 

  1. Intróito: uma festa única e singular

     

A Igreja só celebra e festeja 3 nascimentos. S. João Baptista é o único santo que a Igreja celebra a festa do seu nascimento. Este facto indica já, por si próprio, a grandeza e a importância de João Baptista. E, além do seu nascimento, a Igreja celebra ainda o seu martírio a 29 de Agosto.

 

Jesus diz de João que ele é o maior homem nascido de mulher. Ele é o Precursor, é aquele que prepara os caminhos do Senhor. A sua vida, desde o seio materno e do nascimento até à morte pelo martírio foi um constante apontar para o Messias – Aquele a quem João não é digno sequer de desatar as sandálias dos seus pés.

 

Hoje, a Igreja propõe-nos olhar para este exemplo modelar de fé e de testemunho. Ele soube plenamente ocupar o seu lugar cumprindo fielmente a missão à qual foi chamado por Deus.

 

Permitam-me, a partir das leituras que escutamos, olhar para João tendo em conta a sua missão de profeta que fala a 1ª leitura e a sua missão de testemunha e sinal de Jesus que Lucas refere quer na 2ª leitura dos Actos do Apóstolos quer no Evangelho chamado da Infância. 

 

  1. O perfil do profeta

     

A 1ª leitura convida-nos a olhar a figura misteriosa do profeta, do servo do Senhor. Antes de mais, o profeta é chamado por Deus desde o seio materno. É chamado para uma missão especial e singular. Por isso, porque é chamado, deve ter consciência, e tem, que a missão não é sua mas sim d’Aquele que chama. E, se é Deus que chama, então a missão é do próprio Deus porque é Ele que a dá.

 

A missão do profeta tem a ver com a Palavra de Deus. O profeta é escolhido para que essa Palavra possa chegar a todos os homens e mulheres. Por meio do profeta, porque o profeta é instrumento, Deus propõe um novo caminho que exige conversão e mudança.

 

Ao cumprir a missão, o profeta experimenta, não poucas vezes, a incompreensão, a perseguição e o fracasso. Diz a 1ª leitura: “foi em vão que me fatiguei, inutilmente gastei as minhas forças” (v. 4 ab). No entanto, o profeta tem a consciência, forte e segura, de que na sua missão não perdeu nada porque Deus não deixou de o proteger e recompensar. Diz-nos Isaías: “o meu direito está nas mãos do Senhor, a minha recompensa está depositada no meu Deus (v.4cd).

 

Ser profeta, hoje, é, como João Baptista, apelar à mudança das mentalidades, é convidar à conversão. O profeta deve sentir-se instrumento de uma missão grandiosa que é o anúncio do reino de Deus aos homens e mulheres do séc. XXI. Ao sentir-se instrumento desta missão grandiosa, automaticamente, o profeta sente-se pequeno, secundário, frágil e humilde, totalmente dependente da graça, apoio e sustento de Deus. De facto, “ele deve crescer e eu diminuir” (Jo 3, 30).

 

  1. Dar testemunho d’Aquele que chama

     

Esta é a missão de cada crente, de cada homem e mulher de fé, de cada profeta do nosso tempo. Este testemunho que todos somos chamados a dar, porque acreditamos e temos fé, não é tanto de ideias e palavras mas de obras concretas de justiça, amor e solidariedade.

 

Se nós, os crentes, não formos, com a nossa vida, manifestação do amor de Deus, salvador e gratuito, dificilmente ajudaremos outros a acreditar e a seguir Jesus, ainda que saibamos oferecer muita informação religiosa e doutrinal.

 

Deus, bem o sabemos, caros cristãos, não se apresenta aos homens com a autoridade dos argumentos racionalistas mas, antes com a verdade e a autenticidade que emana da vida dos crentes que sabem amar de maneira efectiva e incondicional todas as pessoas que se cruzam na sua vida. 

 

Por isso, o melhor e mais credível testemunho que podemos dar de Deus é o amor pois este é o único que pode mostrar e revelar a verdade de um Deus que, em Si mesmo, é Amor, como bem definiu S. João.

 

Este testemunho do amor de Deus, soube-o S. João Baptista dar de forma exemplar. Ele sabia que não era a Luz que vinha ao mundo senão que era a indicação para essa Luz que é o próprio Deus que se faz próximo de nós em Jesus. Ele sabia plenamente que depois de si viria Aquele que baptiza no Espírito e no fogo, como no-lo disse na sua pregação.

 

S. João Baptista foi totalmente testemunha. O Evangelho diz dele: não era a luz verdadeira mas vinha para dar testemunho da luz (cf. Jo 1, 6) e, de facto, deu esse testemunho (cf. Jo, 1, 15).

 

  1. Conclusão – profetas e testemunhas

     

Hoje, caros cristãos, ao olharmos esta figura eminente da história da salvação saibamos aprender dele estes dois aspectos: por um lado, aprender a não vacilar diante das dificuldades da missão. Nós somos todos chamados a ser profetas de Deus e suas testemunhas no meio dos homens e mulheres do nosso tempo. Por outro lado, devemos ter consciência da nossa pequenez e da nossa fragilidade. Por isso, devemos afinar a nossa vida pelo diapasão da humildade. Com S. João Baptista, irmãos, saibamos dizer e ser como ele disse e fez: Jesus deve crescer e eu diminuir.

 

Tópicos para reflexão da missa da Catequese:

 

História da Estrela da Esperança

 

  1. Levar o ensinamento da história a sério para a nossa vida. Ela não é só para ser bonita mas deve ensinar-nos um aspecto importante que tem a ver com a missão que somos chamados a desempenhar no mundo.

     

  1. Cada um de nós deve procurar ser na nossa vida aquela estrela da esperança na vida das pessoas que nos rodeiam

     

  1. Hoje, celebramos alguém que soube verdadeiramente ser estrela. Quem é? S. João Baptista.

     

  1. Pois, porque é que João Baptista soube ser uma estrela:

     

    • Porque soube na sua vida concreta semear a esperança no coração das pessoas do seu tempo

       

    • Soube brilhar, soube se luz e soube para apontar qual o verdadeiro caminho a seguir: esse caminho era Jesus que João soube de verdade indicar. E quando as pessoas viram qual era o caminho S. João não quis ser a estrela da fama mas a estrela da humildade. Soube retirar-se para que as pessoas soubessem seguir realmente quem merecia. Esse era Jesus.

       

    • Para este tempo de férias que já se respira e aproxima queria lançar-vos um desafio: como S. João Baptista saibamos ser estrelas da esperança, saibamos brilhar e mostrar a luz da fé, a luz de Deus, a luz de Jesus a todas as pessoas e dessa forma saibamos semear em todos os corações a esperança. Desta forma estaremos a ser amigos de Jesus, seus seguidores, suas testemunhas e seus anunciadores. Como S. João Baptista soube ser.

       

Aprender com quem sabe…

 

S. João Baptista

 

Um apelo à conversão

 

nos dirige o Precursor,

 

e precisamos de o ouvir

 

porque caímos tantas vezes.

 

João não é a luz

 

senão sua testemunha.

 

Na luz que é Jesus,

 

da qual João é indicador

 

queremos queimar

 

tudo o que é desamor,

 

ressentimento que paralisa,

 

tudo o que é critica destrutiva,

 

tudo o que não é construtor.

 

Nessa fogueira, Senhor,

 

queremos queimar o joio da nossa vida:

 

o joio do pecado e dos caprichos,

 

a erva daninha da discórdia e da desunião.

 

Purificados pela luz e fogo, que és Tu, Jesus,

 

queremos comprometermo-nos no anúncio do Teu reino,

 

queremos apresentar os Teus caminhos de salvação,

 

queremos propor e oferecer a todos os humanos

 

o amor total, puro e gratuito

 

que tens por cada um de nós.

 

Diac. José António Carneiro

 

Escrito por JAC em 10:11:23 | Link permanente | Comments (0) |

2007/06/16

X Domingo do Tempo Comum | Ano C

X Domingo do Tempo Comum | Ano C

 

Solidários na vida e na morte

 

  1. Intróito

     

 

Diante da compaixão de Deus só nos podemos admirar e abismar. Durante tantos séculos, infelizmente, a Igreja pregou e relevou um Deus castigador, de mão forte e braço poderoso, impassível diante dos sofrimentos e dores humanas, incapaz de misericórdia. Este é um discurso alheio ao Deus que Jesus vem revelar. Este Deus de Jesus compadece-se, comove-se, faz-se próximo das fragilidades humanas.

 

Podemos dizer com a Constituição Apostólica Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II: “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e dos que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo” (nº1). Isto porque Deus oferece a todos o seu amor e a sua misericórdia.

 

A Liturgia da Palavra de hoje vem reforçar, como se fosse necessário, esta verdade fundamental e vem mostrar o rosto misericordioso do Pai e o coração amoroso do Filho.

 

 

  1. A vida mais forte que a morte

     

 

Permitam centrar a minha reflexão na 1ª leitura e no Evangelho que são trespassadas por esta verdade fundamental aos olhos de Deus: a vida é mais forte que a morte.

 

 

        1ª Leitura

 

        

 

         A morte do único filho da viúva de Sarepta causa-lhe uma dupla aflição, um duplo desespero. Por um lado, sofre a morte do próprio filho e, por outro, sente-se de certa forma culpada e responsável por causa dos pecados que cometera na juventude. A viúva procura justificações, procura causas. E na sua consciência, apenas um pensamento: meu filho morreu por causa dos meus pecados porque Deus me castigou.

 

         Diante deste facto, o profeta Elias professa a sua fé num Deus que não é dos mortos, senão dos vivos. Elias nada diz. Pede-lhe o filho morto e, em silêncio, ora a Deus para que pelo Seu poder restitua a vida àquele jovem. O profeta sabe que Deus pode fazer isso e assim acontece. Entrega o filho vivo à sua mãe que prontamente bendiz o Deus de Elias.

 

 

         Evangelho

 

 

         O texto do Evangelho é igualmente atravessado pela mesma ideia da 1ª leitura.

 

         Um encontro às portas da cidade de Naim: de um lado, Jesus os discípulos e uma grande multidão a entrar; do outro, um defunto, uma viúva e uma multidão de acompanhantes a sair para a sepultura.

 

         Ao ver a cena, diz o evangelista, Jesus compadeceu-se daquela viúva. Desta compaixão de Jesus resultam duas atitudes: primeiro, dá coragem e alento à viúva (“Não chores”) mas, não se ficando pelas palavras, restitui a vida ao jovem falecido e entrega-o à sua mãe.

 

         Neste milagre, é interessante notar que Jesus toma a iniciativa, age por Si próprio. Ninguém Lhe pede o milagre. Apenas os seus sentimentos de compaixão o impelem a agir solidariamente para com aquela viúva que vai a sepultar o seu único filho. Jesus não pede nada, nada exige: nem à mãe, nem aos acompanhantes. Age simplesmente movido por amor, por compaixão, por misericórdia. Simplesmente ordena: “levanta-te”. E isso basta! Basta a Sua Palavra que dá vida porque Ele é o Senhor da vida, Ele é a própria Vida.

 

         Ao ver o sucedido, toda a multidão se enche de temor e glorifica Deus: “Apareceu entre nós um grande profeta; Deus visitou o seu povo”.

 

 

  1. Vamos à morte que a vida é certa. Solidariedade sempre

     

 

De facto, são notórias as semelhanças nestas duas leituras. Há, também, diferenças consideráveis. Permitam-me, contudo, extrair delas algumas considerações concretas para a nossa vida já que é esta Palavra que Deus hoje comunica a cada um de nós.

 

Parece-me que diante destes textos podemos voltar o nosso olhar e a nossa atenção para o modo como nos situamos diante da realidade da vida e da morte. De facto, a morte é, cada vez mais, um assunto tabu. Ninguém quer falar dela. Pode trazer agoiro ou má sorte. No entanto, penso que nos devemos colocar positivamente perante estes factos. A vida parece não causar problema de maior mas o mesmo já não se pode dizer da morte.

 

Há, a meu ver, dois modos de nos situarmos e que de certa forma estão espelhados nestas leituras. Por um lado, adoptar uma atitude de desespero, de “desesperança”, de frustração, de derrota, de abismo e de trevas. Assim se encontravam, inicialmente, as duas viúvas. Por outro lado, podemos e devemos adoptar uma atitude de confiança, de esperança, de alento e de sentido. Sabemos que, a partir da ressurreição de Jesus, a morte não é a palavra última e definitiva. A vida venceu para Cristo como para nós.

 

Pior que tudo é olhar a morte como castigo de Deus. Deus não castiga, apenas ama porque Deus é só Amor (cf. S. João). Portanto, acreditar em Deus deve implicar uma convicção forte de que a morte não é o fim senão o princípio e o pórtico de entrada na vida com Deus, para a felicidade.

 

Uma outra verdade resulta ainda destes textos. O Deus que acreditamos, seguimos e amamos não está longe de nós. Bem pelo contrário. Ele vem até nós, vem às nossas cidades, às nossas comunidades, às nossas casas, às nossas vidas. Faz-se próximo de nós. Nesta proximidade vive igualmente o nosso sofrimento, os nossos dramas, as nossas dores. Sofre com elas, por nós, e compadece-se por que muito ama. E quem ama, sofre!

 

O Deus que Jesus anuncia é Deus da vida e Deus dos vivos. É autor da vida e fundamento da nossa esperança. Restitui alegria às nossas vidas que tantas vezes parecem cortejos fúnebres. Não estamos sós! Mesmo no dramático das nossas vidas Deus acompanha-nos e consola-nos, compadece-se e comove-se.

 

Para nós, crentes, deve ficar a certeza de que a vida ganha sentido com Deus. E como Deus age de compaixão, misericórdia e amor connosco assim devemos agir com os que nos rodeiam. Agir solidariamente em todas as situações para nos sabermos consolar mutuamente.

 

Permitam-me terminar orando por mim e por vós…

 

 

 

 

 

 

 

Consolo solidário

 

 

Colocaste-me no mundo

 

para suavizar a dor de outras vidas

 

para acompanhar nos maus momentos

 

para ajudar a carregar pesos lancinantes de tantas cruzes

 

principalmente dos excluídos e marginalizados, simbolizados nas “viúvas”.

 

Envias-me como irmão a repartir ternura

 

a comunicar afecto

 

a dar força ao que ruiu

 

a consolar quem sofre

 

a sarar feridas

 

a amar todos como Tu, Jesus.

 

Envias-me pelo mundo

 

a dar a boa notícia do Teu amor

 

compassivo e clemente

 

a recordar que é possível a fraternidade

 

e que a igualdade é tarefa a atingir.

 

Envias-me a despertar consciências adormecidas

 

a tranquilizar os consumidos

 

a sossegar intranquilos e irritados

 

a criar clima de harmonia e acolhimento.

 

Envias-me todos os dias, todos os momentos

 

aos Teus filhos todos

 

a todos os recantos escondidos

 

a levar a Tua mensagem de Vida, Paz e Perdão.

 

Envias-me para que consiga para todos, Senhor,

 

a vida em abundância que brota de Ti,

 

a dignidade completa

 

o amor e o pão partido e repartido

 

em fraterna solidariedade.

 

Diác. José António Carneiro

 

Escrito por JAC em 18:38:20 | Link permanente | Comments (0) |

2007/06/15

Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

 

07/06/07

 

  1. Intróito

     

“Isto é o meu corpo […] Isto é o meu sangue”! Este é o coração da festa que hoje celebramos em comunhão com toda a Igreja: a chamada festa do “Corpo de Deus” que a liturgia apelida de Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo.

 

Portanto, hoje, é dia para reflectirmos sobre este grande mistério e sacramento que é a Eucaristia. A liturgia da Palavra que acabamos de escutar é particularmente rica em referências implícitas ou explícitas à Eucaristia. Permitam-me, por isso, centrar a minha partilha na 2ª leitura e no Evangelho.

 

 

  1. “Fazei isto em memória de mim”

     

S. Paulo relata aos Coríntios a instituição da Eucaristia por Jesus. E fá-lo sabendo que está a transmitir o que ele mesmo recebeu da parte do Senhor.

 

Com S. Paulo, nesta leitura, vamos como que às origens eucarísticas. Ele mostra aos habitantes de Corinto, como a nós hoje, qual a verdadeira tradição do Corpo do Senhor que se entrega por nós.

 

Desta leitura, podemos ver que a ceia tem a ver com a Páscoa do Senhor. Era a noite em que ia ser entregue. Jesus morria porque se entregava, como pão, para dar a vida a todos.

 

Além disso, a Eucaristia deve fazer memória de Jesus. Não é só celebrar o rito por celebrar mas, o rito deve adquirir um significado para a vida de cada crente que celebra Eucaristia. O rito eucarístico deve significar o nosso seguimento a Cristo e a nossa entrega aos irmãos, porque a Eucaristia é o dom que recebemos da entrega de Jesus para partilharmos e repartirmos com os outros.

 

Por isso, celebrar Eucaristia em memória de Jesus é compartilhar a sua preocupação e amor por todos os homens e mulheres pelos quais se entregou no alto da Cruz. Fazer memória de Jesus é torná-lo presente sempre novo nas nossas vidas.

 

É esta fidelidade à tradição que Paulo vive para si mesmo; e é a esta fidelidade que exorta a sua comunidade e a nossa: “recebi o que transmiti”. O que Paulo ouviu dos primeiros discípulos é o que comunica à comunidade; não inventa nada, não tira nada, mas permanece fiel.

 

Celebrar Eucaristia não deve ser apenas o cumprimento do preceito da Igreja mas deve ser esta permanência fiel à tradição recebida: uma fidelidade agradecida pelo amor do Senhor Jesus.

 

 

  1. Pão partido e repartido: “todos comeram e ficaram saciados”

     

Se olharmos bem para este texto do Evangelho podemos vislumbrar, de certo modo, o esquema primeiro e original de uma qualquer celebração eucarística.

 

         Vejamos que o milagre acontece em contexto de anúncio: Jesus está a falar sobre o reino de Deus. Isto é o anúncio da Palavra, a liturgia da Palavra.

 

         Na celebração eucarística estão sempre pessoas concretas, com vidas concretas e com necessidades concretas para satisfazer. No Evangelho, encontramos também as necessidades da multidão: da Palavra de Deus; da cura; da comida; de acolhimento.

 

         Estas necessidades são todas recolhidas e apresentadas pelos discípulos a Jesus. Aliás, só eles as poderiam apresentar porque, de certa forma, também eles as sofrem. Por isso, os discípulos são os porta-vozes das necessidades da multidão, como o sacerdote presidente é o porta-voz das necessidades da assembleia que se reúne para celebrar Eucaristia.

 

Mas, reparemos, mais concretamente, nas atitudes dos Doze:

 

                   ouvem a pregação como a restante multidão

 

                   constatam a situação/realidade: estão ali uns 5000 homens e o dia está a declinar, portanto, é hora da ceia.

 

                   mandam despedir a multidão

 

                   ouvem a ordem de Jesus: “Dai-lhes vós de comer”

 

                   apresentam o que têm – 5 pães e 2 peixes

 

                   oferecem-se para comprar alimento

 

                   cumprem a ordem de Jesus: mandam sentar a multidão por grupos

 

                   recebem e distribuem o alimento

 

                   recolhem as sobras

 

 

         Vejamos, com olhos de ver, a mudança de mentalidade. Os Doze passam de uma mentalidade mercantil e capitalista (porque mandam despedir e depois querem comprar alimento – isto expressa a sua auto-suficiência) para uma mentalidade solidária e confiante (sentem-se impotentes diante da situação e por isso, partilham o que têm. Desta forma, a divisão permite a multiplicação e “todos comeram e ficaram saciados”).

 

 

Com os Doze, podemos e devemos aprender a confiar em Jesus. Devemos reconhecer a nossa impotência diante de inúmeras situações da vida. O milagre da “multiplicação” exige antes de mais a partilha e a divisão. Sem isso não há milagre. Certamente, 5 pães e 2 peixes partilhados são muito alimento pois “todos comem e ficam saciados”. A Eucaristia implica a partilha daquilo que somos e temos.

 

 

         Concluo com uma oração que vai neste sentido…

 

                            partilhar o que temos e somos!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O que sou e tenho…

 

Hoje, entrego-Te o que sou e o que tenho

 

porque sei que só o que se partilha

 

se goza e possui na totalidade.

 

 

Entrego tudo o que tenho:

 

peço que me ajudes a não apegar às coisas

 

a ir-me libertando do material

 

a partilhar mais, a ter menos e a ser mais livre,

 

a não cair no consumismo que me arrasta ferozmente.

 

 

Entrego tudo o que sei:

 

sabendo que tudo me foi ensinado por outros

 

que mo transmitiram, ofereceram ou emprestaram.

 

 

E como de graça recebi, de graça o entrego

 

sem facturar ou taxar nada a ninguém.

 

 

Entrego-me todo, Senhor,

 

para que os meus planos sejam os Teus planos,

 

os Teus caminhos os meus caminhos,

 

os Teus sonhos, os meus,

 

os meus projectos contigo

 

construindo o Teu Reino.

 

 

Entrego-Te o que é Teu: eu mesmo, todo inteiro!

 

quero que Tu sejas Dono da minha agenda,

 

Senhor do meu corpo,